sábado, 29 de janeiro de 2011

já te disse que hoje chego mais tarde

vê-se logo que não trabalhas
vê-se logo que não sabes a quantas andas
vê-se logo que nem sabes onde moras
vê-se logo que não és de cá
vê-se logo que não sabes de quem és

é tão giro sai ao pai

mas tem os sintagmas da mãe
e a acentuação dos avós
tem o pessoa no coração e o almada na virilha

está cheio de o'neill na barriga


e desidério morre em chamas


é ele
a trama
o delírio
a intriga

em combustão
em exaustão


tudo uma exasperação




pim

pim
pum

pim




pam



catrafoda-se
caralhoda-se
o raio do pum


morram todos pois
plim
de tédio pois

do arrasto pois



ai este deserto encurralado dentro do vosso frio



frio vosso carne a nossa
ora que porra

congelada


desidratada


cheia de sede pois
cheia de fome
importas o que importar e exportas o que deixas de querer carregar

anankè anankè

bravos pathos com t h
[quá quá quá]
verdade é que me vejo sempre grega


penso anankè e penso olha porra penso burden

e burden rima com o tyler

o tyler pesa no durden

desculpem-nos lá o referencial
o ecletismo do manancial
mas presumimos que uns 80% de vós nós tenham visto o fight club

e o tenham visto até ao fim


ao contrário da música no coração
coisa que muito menos por centos dos vós nós acreditamos por cá tenham aguentado mais do que vinte minutos de seguida



talvez
somando todos os natais das vossas nossas vidas em nó

o tenhamos visto inteiro

isto se subtrairmos as telhas
as neuras
o franzir das sobrancelhas

mas aposto que se lembram muito melhor da mecânica laranja da irreversibilidade violadora do combate clubesco do chinês fechado num quarto dos saws onde coube a paciência


tão violenta a nossa imagética cinematográfica
tão pachorrenta esta nossa almagética
síncrona
sim, crónica
idiótica
costumada
a nossa encostada
pegajosa
dialéctica


sempre tão apologética tão cristãzinha quando nem sequer é baptizada



o corpo a querer dizer porra e a voz a dizer chulé
ah pois é
esta puta desta vida o que anda a pedir é porrada
e acreditai-me generosos ouvintes
que nem as putas nem as fadas me habitavam a poesia
foi a lista das compras, senhores
foi a ida ao supermercado
e o café nas finanças
ir ao boom ou ao andanças
e ao destino
a esse cabrão
ter que mudar-lhe as fraldas
ora que porra
ora que merda
ora que tristeza
eu sorrio muito
sou muito simpática
gosto muito dos cães e dos gatos
mas digo mal dos pombos que nos dão cabo dos monumentos
é tudo uma espécie de vírus na placenta revestido com os azulejos dos descobrimentos
é pois ao menos uma doença com linhagem
o primo é conde
mas depois falta-lhe a coragem
e o efeito
pueril borboleta
juvenal rabeta
e até a canalhice é maneta
preciso de umas luzinhas, meninas
de umas luzinhas que pisquem
venha a nós a alegria das campainhas
e se não das campainhas
da magia das papoilas
qualquer coisa
qualquer coisa para me escorraçar deste prédio
sobrevive a qualquer coisa

esta seca deste tédio
corre-lhe o cimento nas veias
tem canhões entre as ameias
mas virados para os seus próprios soldados
esses nós de marinheiros que nós somos
esses contornos
das listas
das compras
das finanças
carne fria em tempo quente
tempo livre em sangue morno
sem tédio não há consolo
quem dá mais?
a chave, a chave, o dinheiro
e o amor do dartacão
quero é um cirurgião
para me livrar do transtorno
e pois sim eu sei que me alongo
que ser sintética
meia frenética
meia antitética


caminhar algures entre o desidério e a disenteria


primeiro o manifesto mas só depois do cruzamento

largar as ondas do mar


pousar o sal



do choro do esforço do condimento





largar




largar






alargar




e lutar






porque a luta é na terra





e a viagem é no mar


ao mar o turismo
na terra a hipótese do abismo



o horizonte não é altura não é do tempo
não é firme o sonho denso
e não podemos viver para sempre em contratempo
de nada serve a vertigem sem o firmamento

à luta, pois, à guerra


é que a guerra é cá da terra

e o teu corpo é do momento




mesmo que o desejo que te embala o pensamento esteja noutro alento qualquer
não há remédio
é teu também o filho da puta do tormento


em nós recai a generalidade obtusa de um tempo bruto e lento


fere a todos dói a todos



mas poucos ainda infelizmente ainda assustadoramente poucos
se confrangem de armas em punho
com o punho se defendem do constrangimento
e se armam contra este tempo


sim
desta vez preciso é que saias de casa
do teu apartamento
não
não há desta vez como manter a mente bem à parte do tormento
não é de cima a-penas que verás a porcaria
(por que rio? porque não mar?)
Água vai!

água vai a merda escorre e mesmo que te julgues abrigado o lodo se esfiará entre os teus cabelos vai certamente arranjar maneira de te entrar pela janela e se não te puseres a pau há-de invadir-te todos os orifícios depressa te correrá no sangue e te irrigará todos os órgãos


regar de razão todo este veneno



rasgar a morada deste tempo



sim

é preciso que desta vez te dignes a sair da tua sala