sábado, 26 de fevereiro de 2011

e quando se esgotarem as palavras, que seja por força da melodia



os dedos não ficam roucos
e melhor falam por vezes do que a boca
chegam até a beijar-te o ouvido e a morder-te o pescoço


de qualquer maneira é sempre a eles que cabe esconder o bocejo



mas este sono que invocamos mesmo sonhado nunca tem vontade de dormir
de vez em quando ainda tenta ficar calado
e logo te atira um dó sustenido como uma pena suspensa
por mais que se esforce
é sempre acordado que chora o atropelo do mi pelo fá em marcha a ré

não tentes adormecê-lo
e nem por sombras tentes agarrá-lo

mas não te deixes enganar

esse lá tão seguro de si serve apenas para encobrir um sol envergonhado

para quê calá-lo?







acabará sempre por morrer afogado num mar de luz


terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

zaragatas


estas inócuas brigas de gatas



nelas não me imiscuo

não mais

não além


não depois




que as sustentem sozinhas

essas mágoas

essas galinhas



aqui nada treme que o tremor


e vocês só celebram cadafalsos




infernos cheios de juízos falsos e céus prenhos de bocejos



quem dá mais?
quem se converte?



e agora o aqui

e este cimento triste a amparar-nos as quedas



só canto o vinho quando esfolo os joelhos



não

azar das gatas



prefiro sangrar os joelhos a ter que me desviar das vossas garras


jurei pelo orgulho paternal não me deixar envolver em guerras baratas

édipo não foi sempre cego
e o fado não foi sempre um peso






pois que não calo


mas por certas almas
por certas lutas

por essas não berro


não esfolo as cordas nem arranho a pele



há que resguardar a carne de conflitos estéreis




e tudo isto dito sem intriga
sem fobia


há que manter as aparências num regime de ironia




e se falhar a ironia
desculpa-te com a geografia
e se falhar a geografia
remete-te à burocracia
e se não colar a burocracia
engole em seco e espeta-lhe com a afasia



e se a afasia te falhar

espeta-lhe com a carta da minha acrasia


é sempre um trunfo em mão alheia, esta minha caótica temperança




mas não iludas as tuas garras


de um lado a gata na contenda


atrás dela o teu azar





é que eu não agarro, deixo livre



e se arranho, quando aranho

é porque posso morder





segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

deslizamento interno

Pensar que centenas de anos sobre ti se abateram para que percebesses que quando perdes o ritmo, e perdes o ritmo, vais perder o ritmo ainda muitas vezes, não te iludas do contrário, mas bem, quando o perdes, sempre que o perderes, te basta simplesmente que feches os olhos. Centenas de anos se cruzam também nas tuas veias para que não caias. Tem fé. A tua carne sabe sempre muito mais do que imaginas. Deixa-a pensar.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

lírica subversão

o problema é sermos todos muito líricos

e não percebermos que a força não vive na forma do verbo




rude se esconde a potência por baixo do verso



deo rola a linda



tão perfumada, tão levezinha


tão controlada


florida como a revolução
tão encarnada, a carne cheia de nada

é que as balas não se lançam em ponto de rebuçado


e uma raiva com açúcar é uma voz amordaçada
não vale de nada



não fere nem sara