quinta-feira, 29 de março de 2012


mais do que metodológico
o nosso desafio é tautológico

está dependente de uns quantos factores meteorológicos
e das inundações de certas almas
justapostas não só aos que morrem à sede
mas também aos que bocejam de seca


e porque não é com a introdução de um terceiro deserto a meio do caminho que
esperamos
conseguir
rachar
as vossas paredes tão sólidas e solidariamente binárias
nem com isso sustentar a ideia de um certo equilíbrio maternal e fraterno
entre a partida e a chegada do monopólio de plástico com que teimam contrariar-nos a vida


o nosso desafio é o da propulsão




estavam ainda por erguer as trincheiras quando ao resgatar de um naufrágio a minha escrita
a lancei ao desafio de uma lírica e mundana guerrilha
mas eis que dou por mim surpreendida
enviesada
costurada ao pleno estrondo da batalha


sou correspondente de guerra

vivo na pele de um soldado desarmado porque não fui a tempo de levantar a credencial de inapto
tomasse ela a forma de um carimbo branco ou o peso de um revólver bem calibrado

fujo de bombas desamparadas
de tiros desconfiados
de petardos mal amados
abrigo-me nas cavernas dos crentes

e se apanhada nas fileiras guardo os teus ombros com os meus
prometo guardar os teus ombros com os meus


e no entanto a pele do soldado desarmado esvai-se por vezes dentro da carne que o suporta

escorrega


viscosa

e ele ainda assim sedento

mas por saber profundamente que só ombro a ombro se efectiva o escudo que ainda nos guarda
por conhecer intimamente essa hombridade que não permite distracções
e que ainda assim reconhece sempre as afinidades
porque o lado a lado é um salto mais arriscado do que o frente a frente
por isso entre outras coisas


não te beijo


pelo menos não por enquanto






só no final de todas as batalhas poderão retornar os corpos à qualidade livre da sua simetria

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