quinta-feira, 31 de março de 2011

sou eu maria da fonte
eu a patuleia
e aos vossos pés cuspo a guerra da crimeia
como se minha fosse
como se tua parecesse

sôfregos ergueremos a cimeira
real companhia antiga,
essa besta ainda nova e já tão velha


há uma grande dose de alma de reserva nesta fonte feita lago lamacento

o que o sol seca, o erro queima
 e mesmo sem maré se há-de erguer o vento


nem que seja só para que se levante a poeira

sexta-feira, 25 de março de 2011

não mais. não mais para a frente. não mais para trás. não mais para ficar.
não.
não mais.
por lorpa me tomem se ficar. ou se embora me for.




por lorpa, tudo bem.



mas

mas
por torpe
mas
por trôpega
mas
por atrelada
por encalhada

não me canteis

que quando vos tropeçar o tomar no julgamento


eis que vos direi
simples e somente

bardamerda que vos leve a todos.

a puta da recessão que vos foda.


a vós,
a vós sim,
seus bandoleiros
a vós, sim,
ó imbecis,
ó tachocratas
 seus quadrilheiros onde a vergonha não mora

a vós também

ó tristes donos de uma voz falhada

ó vós para quem o nós é uma chatice

voz vossa pura indolência
qualquer rasgo de força é sempre mera complacência
nesta luta pela subvivência

todos a contribuir afincadamente para a panelinha da eficácia
para o afundamento
para a ignorância

não
não todos

mas demasiados
à espera que abraço os tome em forma de tacho
com toque de veludo

confinados
embrenhados
embrumados dentro do vosso mísero miserável sistema
o nosso nós que a vossa voz não carrega





andamos pois, irmãos meus
andamos pois, ó meus irmãos
há que anos e anos a bradar aos céus
que isto não vai lá nem com contas nem com guizos
e nem os berros altos e nem os largos gritos
nem mesmo se vestidos de sussurros
chegam para derrubar os muros pilares da nossa agonia
moldes cimento e tijolos da vossa apatia



é que no final das contas
eu tenho é problemas de ouvidos
diz que falo sempre muito alto




e nunca ninguém me ouve

quarta-feira, 16 de março de 2011

isso de morar na estrela, no cais ou no bairro alto
é tudo muito bonito
muito alegre
muito perto

mas pouco alto

aqui nesta terra fizeram-se as falésias mais recuadas
e o cheiro do mar trazido pelo vento do rio
aí nesse baixo perto
fuzilado pelo escape
embacia-me as janelas
cobre-me os olhos de fumo

não é pelo facto de teres o rio à tua frente que ele te chega mais concreto
sabemos bem que o olhar não está no ver

aqui só como só aqui
no alto da falésia dos meus vidros espelhados onde se ouvem chorar as gaivotas
o vento faz-me doer o mar que sopra do rio e crer que mergulho
que finalmente mergulhei
que me ausento e me procuro e reenvio a porto seguro todo esse fumo do rio


mas aqui não há enganos nem desvios

há mar terra rio pomar deserto
aqui mora toda a geografia


e onde quer que chorem as gaivotas




hão-de chorar para além de qualquer arquitectura

sexta-feira, 11 de março de 2011

tire-se o propósito às coisas




e pode ser que lhes encontremos o sentido


tirem-se os folhos às saias e as cartas dos envelopes




às coordenadas
arranca-lhes o sul e o norte

tira as cortinas das janelas


tanto faz que te sirvam de tapete voador ou de pano para sacudir o pó

que faças um trapinho com elas

e que a seguir sem remorso o leves vestido aos dentes


carne ideia véu rasgar


e se experimentássemos calar o verbo e ainda assim arriscar a fala?



tirem-me a frente e a retaguarda
esgotem-me a vontade e deixem-me o desejo vivo


há que experimentar a marcha sem a angústia da caminhada

 
seja eu um farol no meio do nada

ou gravidade num penhasco que nunca mais acaba


deixem uma rede armada mas por cima do meu trapézio
há sobretudo que inverter todo e qualquer laivo de segurança

apaguem-me o risco dos olhos
a origem do ventre
a vida da grafia



deixem-me estar só com o mar







já não preciso do horizonte



e muito menos de uma ilha