quarta-feira, 8 de junho de 2011

carta ao filho que hei-de ter

(Não tenhas medo. Ou melhor, tem medo que chegue para te sentires vivo.)


há várias formas de temer pela vida

a única a existir deveria ser o medo da morte
essa cobardia tão nobre de preservar a vida que se preza
e resguardar o corpo que te carrega


não, não há que temer o medo da morte

perigoso é ter medo da vida
e quando a vida é um medo, de nada nos serve o medo da morte


não quer isto dizer, contudo, que te mates

o que te é pedido é que vivas


que sobre tudo




te escolhas dentro da vida
sempre


e
ainda que armado até aos dentes
sorrias
sempre
por favor
mais do que grites

quinta-feira, 2 de junho de 2011

brinde à morte que me deste

de nada adianta perguntar-me se o intuito era preparares-me para a guerra

de pouco me vale perdoar-te
pintar-te nobre desidério

de nada serve acreditar no mal menor
ou chafurdar o pensamento na maioridade

quando o que está em causa viveu sempre em mim em ausência de ti e dentro do teu cautério



por ti trazido
por momentos
o desfalque
 o atropelo

tu guardião do cinismo de betão
eu guerrilheira mais bem armada
mais serena
mais articulada

mas somente em teoria preparada para a batalha
sem saber ainda pelo corpo que é no corpo onde mora a resistência
e que a fé é mera questão de bom senso


à minha pele demasiado aguada ofereceste uns nervos de aço



mas não,
não me interessa perdoar-te

encontrar motivos menos nocivos para o combate
para o deslize
para o desfalque


aqui o canto do cisne há-de ser sempre o salto do acrobata



nem tempo nem lugar postos em causa como arbitrárias consequências delirantes


o trilho se encarregará do pressuposto

e a vontade do encaminhado