quarta-feira, 25 de maio de 2011

ponto de desordem

uma revolução nunca vem só


quando vem, nunca se dá




e retiro o que lá para trás disse,
enquanto se vive também se poema



só não aqui

terça-feira, 10 de maio de 2011

Petição para Uma Montanha Russa em Portugal

pior do que não se saber que o mundo é grande
é achar-se dentro do mundo pequenino
espelho de ser inconsequente
signo afogado
afecto tombado
ser longe e estar perto
 ou o seu contrário


vivo no mundo entre o céu e o inferno

e por vós acederia nunca aos sons que lhes nascem pelo meio
nem às vistas que se estendem além das vossas possíveis e das minhas infinitas janelas

mundo na vida entre que céu e que inferno

simétricos pólos ensimesmados na mesma crua insignificância
o frio metal sobre o metal frio
paradoxo de uma força sem potência
com que cobrem de flores as cortinas das janelas que julgam vossas
quando essas janelas também são minhas e eu sei haver um mar atrás delas


negam-me a vida por se negarem o mundo


só por medo do vento
  que vos venderam o sopro como tempestade
só para que o sol não ferva cruelmente no asfalto
  que os vossos pés descalços já não se sabem caminho
  e os vossos umbigos se esqueceram que não nasceram sozinhos
 
ou então


simplesmente


porque o vosso corpo se desabituou do susto


e já não há um pingo de amor destinado à adrenalina


tanto o mundo como a vida têm as cortinas corridas







é que ainda pior do que achar que se é pequeno
é por conta disso se não fazer do mundo grande


e esconder o mar para que se deixem de esperar as marés




queimem-se então as cortinas












a primeira coisa que nos levaram, para que começássemos a esquecer a liberdade, foi a montanha russa.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

pergunto-me montes de vezes por que raio a sorte rima com morte








e se o quanto das minhas dúvidas mora na ordem do mistério














ou do recalcamento

sexta-feira, 15 de abril de 2011

ecos da destilaria

há agora uma diferença nas palavras
há que lavrá-las
elas são precisas
devem ser precisas mesmo se desafinadas



sabemos bem que esta vindima nos trará azedas as uvas
mas sabemos também que de nada vale o açúcar quando as raízes são secas
chamem lá por sebastião, por malaquias, por oresteu
continuem a culpar os concílios, os monstros, os nevoeiros
e os messias que para vós tão facilmente vão de diabos a parceiros
e ainda falam das prostitutas
que capitalizam somente o corpo que é seu
e honestas vendem o que realmente lhes pertence
vocês que tentam até capitalizar deus
sem perceberem que eu sei que vocês sabem que o deus sou eu

mas atentem
é que se esta nossa aversão ao podre for pelo menos igual à vossa sede de vinho
de nada hão-de valer os vossos votos, os vossos tiros, os vossos submarinos
que nós somos adultos de braços e vocês são só uns meninos

deixemos por favor de confundir o Estado com o Desgoverno
que nenhuma escravidão é florida
e ninguém parte para a guerra com um sorriso vestido

atentem bem
que esquecidos parecem
o vinho depende sempre sempre da vindima
e do pisar das uvas que são nossas





mas nós este vinho não queremos que nada casta é vossa casta
monte antigo agora velho e acre com o desplante de ser caro sem saber ser amigo

e nós povo tão dado à metáfora, ao respeitinho, ao engano
que vos pisamos o vinho e só bebemos bagaço

diremos, quero crer, em breve
basta



há que arrancar as raízes e nos fazermos semente

quinta-feira, 31 de março de 2011

sou eu maria da fonte
eu a patuleia
e aos vossos pés cuspo a guerra da crimeia
como se minha fosse
como se tua parecesse

sôfregos ergueremos a cimeira
real companhia antiga,
essa besta ainda nova e já tão velha


há uma grande dose de alma de reserva nesta fonte feita lago lamacento

o que o sol seca, o erro queima
 e mesmo sem maré se há-de erguer o vento


nem que seja só para que se levante a poeira

sexta-feira, 25 de março de 2011

não mais. não mais para a frente. não mais para trás. não mais para ficar.
não.
não mais.
por lorpa me tomem se ficar. ou se embora me for.




por lorpa, tudo bem.



mas

mas
por torpe
mas
por trôpega
mas
por atrelada
por encalhada

não me canteis

que quando vos tropeçar o tomar no julgamento


eis que vos direi
simples e somente

bardamerda que vos leve a todos.

a puta da recessão que vos foda.


a vós,
a vós sim,
seus bandoleiros
a vós, sim,
ó imbecis,
ó tachocratas
 seus quadrilheiros onde a vergonha não mora

a vós também

ó tristes donos de uma voz falhada

ó vós para quem o nós é uma chatice

voz vossa pura indolência
qualquer rasgo de força é sempre mera complacência
nesta luta pela subvivência

todos a contribuir afincadamente para a panelinha da eficácia
para o afundamento
para a ignorância

não
não todos

mas demasiados
à espera que abraço os tome em forma de tacho
com toque de veludo

confinados
embrenhados
embrumados dentro do vosso mísero miserável sistema
o nosso nós que a vossa voz não carrega





andamos pois, irmãos meus
andamos pois, ó meus irmãos
há que anos e anos a bradar aos céus
que isto não vai lá nem com contas nem com guizos
e nem os berros altos e nem os largos gritos
nem mesmo se vestidos de sussurros
chegam para derrubar os muros pilares da nossa agonia
moldes cimento e tijolos da vossa apatia



é que no final das contas
eu tenho é problemas de ouvidos
diz que falo sempre muito alto




e nunca ninguém me ouve

quarta-feira, 16 de março de 2011

isso de morar na estrela, no cais ou no bairro alto
é tudo muito bonito
muito alegre
muito perto

mas pouco alto

aqui nesta terra fizeram-se as falésias mais recuadas
e o cheiro do mar trazido pelo vento do rio
aí nesse baixo perto
fuzilado pelo escape
embacia-me as janelas
cobre-me os olhos de fumo

não é pelo facto de teres o rio à tua frente que ele te chega mais concreto
sabemos bem que o olhar não está no ver

aqui só como só aqui
no alto da falésia dos meus vidros espelhados onde se ouvem chorar as gaivotas
o vento faz-me doer o mar que sopra do rio e crer que mergulho
que finalmente mergulhei
que me ausento e me procuro e reenvio a porto seguro todo esse fumo do rio


mas aqui não há enganos nem desvios

há mar terra rio pomar deserto
aqui mora toda a geografia


e onde quer que chorem as gaivotas




hão-de chorar para além de qualquer arquitectura