quarta-feira, 9 de maio de 2012

há noites
em que de bom grado trocava as avenidas
pelas galerias

mas sei já que se não de manhã eventualmente depois de amanhã
a vontade se afoga


ou eu nela

quarta-feira, 25 de abril de 2012

sou vermelha


sem qualquer dúvida


pelo menos até que o cansaço ou o tempo me esbranqueçam o pêlo


e como a via genética me previne do acizentar do cinzento velho
é do alvo ao rubro ao alvo de novo que a minha viagem se pinta
 sou vermelha sim
sem dúvida
e ao mesmo tempo viúva


mas sou vermelha, não obtusa


e não é o arco-íris que me faz confusa
nem as bandeiras dos piratas alheios, nada puros
me intimidam




mas sim a vossa concisa e lamacenta monotonia
a vossa concisa, lamacenta, mal-amada
mono-tonia


quinta-feira, 29 de março de 2012


mais do que metodológico
o nosso desafio é tautológico

está dependente de uns quantos factores meteorológicos
e das inundações de certas almas
justapostas não só aos que morrem à sede
mas também aos que bocejam de seca


e porque não é com a introdução de um terceiro deserto a meio do caminho que
esperamos
conseguir
rachar
as vossas paredes tão sólidas e solidariamente binárias
nem com isso sustentar a ideia de um certo equilíbrio maternal e fraterno
entre a partida e a chegada do monopólio de plástico com que teimam contrariar-nos a vida


o nosso desafio é o da propulsão




estavam ainda por erguer as trincheiras quando ao resgatar de um naufrágio a minha escrita
a lancei ao desafio de uma lírica e mundana guerrilha
mas eis que dou por mim surpreendida
enviesada
costurada ao pleno estrondo da batalha


sou correspondente de guerra

vivo na pele de um soldado desarmado porque não fui a tempo de levantar a credencial de inapto
tomasse ela a forma de um carimbo branco ou o peso de um revólver bem calibrado

fujo de bombas desamparadas
de tiros desconfiados
de petardos mal amados
abrigo-me nas cavernas dos crentes

e se apanhada nas fileiras guardo os teus ombros com os meus
prometo guardar os teus ombros com os meus


e no entanto a pele do soldado desarmado esvai-se por vezes dentro da carne que o suporta

escorrega


viscosa

e ele ainda assim sedento

mas por saber profundamente que só ombro a ombro se efectiva o escudo que ainda nos guarda
por conhecer intimamente essa hombridade que não permite distracções
e que ainda assim reconhece sempre as afinidades
porque o lado a lado é um salto mais arriscado do que o frente a frente
por isso entre outras coisas


não te beijo


pelo menos não por enquanto






só no final de todas as batalhas poderão retornar os corpos à qualidade livre da sua simetria

quinta-feira, 15 de março de 2012

do caos em volta

tudo a ruir
e no meio do devir-ruína
eis que os dias me estendem alguma paz

é, preocupo-me demais


para o diabo com toda a vossa entropia
escolho deixar de vos ouvir





por momentos

sábado, 18 de fevereiro de 2012

still nature #3

se calhar toda eu não passo de um mal entendido.

o mais certo é sermos todos um erro de entendimento


ainda assim
aqui estamos

abraçamos o erro todos os dias
e seguimos com a vida porque com a morte não podemos


alguns vão trabalhar
outros não


e há uns que fazem casas
e outros há que se fazem lar
por vezes são os mesmos
por vezes não


abraço o meu erro todos os dias
e o abraço não me deixa dormir

às vezes beijo o teu erro na testa
e corro o engano ao biqueiro

outras não


ainda assim
teimo errar-me continuamente
continuadamente dentro da mesma floresta

há quem lhe chame apego
e quem o pinte consolo



mas eu chamo-me ana
ardo no bosque
e nele vos pinto a todos, ó braços

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

still nature #2

ouvi dizer que cresceu

fez-se grande
enrouqueceu

dizem que se livrou da espera
e que mudou de falácia

ouvi dizer que se foi

mas porque cresceu
o rasto deixado pelo caminho tornou-se mais longo
mais viscoso

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

ofelianamente
wittgensteinianamente
deleuzianamente
sou conduzida
ao suicídio da lógica imanente
à lógica imanente do suicídio
à lógica do suicídio imanente
à lógica da imanência suicida
à imanência suicida da lógica
à imanência da lógica suicida
à imanência lógica do suicídio
ao suicídio imanente da lógica
ao suicídio lógico da imanência




e todas estas excelsas referências
lentamente processadas pelo meu caótico organismo linguístico
precipitam-me numa espécie de animismo prepotente
tradução directa de certa glamourosa potência decadente
de uma sólida virtude cabotina
que nunca se livra da rima por mais que tente