sexta-feira, 26 de agosto de 2011

só para não deixar o agosto em branco
dou por mim a lavrar um gosto seco
contrariado

a verdade é que sou um corpo eternamente amotinado num dezembro enevoado
moro-me numa espécie de tempo onde não há espaço
e por isso faço sempre por habitar um espaço sem tempo

vou guardando por vezes umas madrugadas


mas o hoje ecoa sempre
longíncuo e sem coordenadas

até agora não descortinei onde pertence
se à ausência que se faz presente ou à presença que se faz ausente


não sei ainda ver além do para trás e do para à frente


podes processar-me
parodiar-me
chicotear-me


não fazer caso




afinal
se eu não sei ver, por que raio ouvires-me?

domingo, 31 de julho de 2011

Por vezes, voltamos atrás para percebermos que nunca deveríamos ter saído. Outras, para percebermos onde nunca deveríamos, definitivamente, ter entrado. E outras há que o que nos dizem é que isso de chegar e de partir não faz qualquer ponta de sentido.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

não sei se esta é a minha maneira de atravessar o tempo, ou se é o tempo que se me atravessa desta forma

de qualquer das maneiras, está quente e é preciso não deixar que o gelado se nos derreta nas mãos

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Acima de tudo, há que ter o desplante de libertar a verdade.
há qualquer coisa de admirável nas palavras suspensas


nesses fonemas prisão que te amarram a garganta
ao mesmo tempo que se escapam por entre os nervos
e te amordaçam a alma
expandem o delírio
mas tolhem-te a coragem
berram em ti por te quererem mudo






há qualquer coisa de admirável nas palavras suspensas


elas a todos pedem para serem ditas
e a todos competirá dizê-las
para que não nos rendamos surdos à cela que nos servem como vida






há qualquer coisa de admirável nas palavras suspensas
e ela é velha, tão velha, que se calhar nunca chegou a existir

quarta-feira, 8 de junho de 2011

carta ao filho que hei-de ter

(Não tenhas medo. Ou melhor, tem medo que chegue para te sentires vivo.)


há várias formas de temer pela vida

a única a existir deveria ser o medo da morte
essa cobardia tão nobre de preservar a vida que se preza
e resguardar o corpo que te carrega


não, não há que temer o medo da morte

perigoso é ter medo da vida
e quando a vida é um medo, de nada nos serve o medo da morte


não quer isto dizer, contudo, que te mates

o que te é pedido é que vivas


que sobre tudo




te escolhas dentro da vida
sempre


e
ainda que armado até aos dentes
sorrias
sempre
por favor
mais do que grites

quinta-feira, 2 de junho de 2011

brinde à morte que me deste

de nada adianta perguntar-me se o intuito era preparares-me para a guerra

de pouco me vale perdoar-te
pintar-te nobre desidério

de nada serve acreditar no mal menor
ou chafurdar o pensamento na maioridade

quando o que está em causa viveu sempre em mim em ausência de ti e dentro do teu cautério



por ti trazido
por momentos
o desfalque
 o atropelo

tu guardião do cinismo de betão
eu guerrilheira mais bem armada
mais serena
mais articulada

mas somente em teoria preparada para a batalha
sem saber ainda pelo corpo que é no corpo onde mora a resistência
e que a fé é mera questão de bom senso


à minha pele demasiado aguada ofereceste uns nervos de aço



mas não,
não me interessa perdoar-te

encontrar motivos menos nocivos para o combate
para o deslize
para o desfalque


aqui o canto do cisne há-de ser sempre o salto do acrobata



nem tempo nem lugar postos em causa como arbitrárias consequências delirantes


o trilho se encarregará do pressuposto

e a vontade do encaminhado