segunda-feira, 21 de novembro de 2011

também eu habito um convento no desterro

e também eu moro na vontade que dentro dele me deixem em sossego


mas por não poder trazer todos os meus a viver nele
me elevo da vontade de ficar em mim fechada




também eu visto o costume do nosso enterro
mas antes de ser certo esse momento
engulo uma golfada de tempo
e sento-me


não dispo o hábito
não cuspo no alento


mas sento-me


e é sentada que me descalço


ouço ao fundo a sede de Paredes e com ela fujo à mesma morte








a fé continua a ser a única coisa que da sorte não depende
fica sempre bem aos pés descalços
e aquece-nos os corações dormentes

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

esperarei que o tempo nos filtre
como uma ampulheta
e que as ondas nos façam vidros mais polidos
nesta praia dos escombros de tantas outras guerras naufragadas

vou deixar a rádio de novo ligada o dia inteiro
à espera que eventuais assombros me venham assolar a pele

sejam eles musicais ou noticiosos


prometo vestir-me mais vezes de amarelo e desafiar os meus mais recônditos medos de cena
que são exactamente os mesmos que os obscenos

não consigo prometer atear menos incêndios

mas estou quase a ter carteira de bombeiro


duvido se valerá de alguma coisa


nunca percebi se o problema era da chama se era do vento

o que sei é que continuo muito dada à queda
faltando-me sobretudo saber se continuo por resiliência ou apenas por nunca ter aterrado de queixo

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

carta à irmã que tenho.

falemos então de agruras
das contendas
dos cinismos dos acampamentos


(há quem faça da revolta uma tenda)


por quem sois?
por quem somos?
o que tememos?


(eu sempre montei tendas para dormir nelas)


falemos porém das estacas
das cordas
das amarras


(já isto me lembra os navios que nos levam à terra nova, a desejada)


não há razão nem paixão para invocarmos as velhas barracas




é que as velas sopradas ao vento tanto se tornam fogueira
como se fazem bolina




(como me arde o caminho)








o que te traz?
o que te leva?




falemos de nós
dos nós


dos incêndios


egos de marinheiro
pés dos caminheiros
mapa de todos os eus do mundo










chega.






afundem-se os barcos
afoguem-se as estradas


não se reinventem sequer os caminhos






deixem-me estar




soube há muito que o desejo do cocktail com chapéuzinho de papel e palhinha colorida se enseja frequentemente bombástico molotov
arremessado contra a mesma falta de cor do sempre




(como se me inunda a rota)




esta sede não é mais do que o mar que nos volve por dentro




haja paciência para o globo
olhos para o horizonte
asas, guelras, espelhos
haja pais e ciência para o globo


(febril será o trajecto)






inventei-me um flamário
não por oposição a um aquário
mas para que um dia entre os dois não consigamos encontrar diferença alguma



segunda-feira, 31 de outubro de 2011

tela
cuidado
cela
cautela
se ela
sentinela
cidadela

cuida dela


a língua tem muito mais para nos dizer do que aquilo que dizemos
com ela

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Já te disse que hoje chego mais tarde #3

tão violenta a nossa imagética cinematográfica
tão pachorrenta esta nossa almagética
sim, sim
crónica
idiótica
costumada
a nossa encostada
pegajosa
dialéctica
sempre tão apologética
tão cristãzinha quando nem sequer é baptizada
o corpo a querer dizer porra e a voz a dizer chulé
ah, pois é
esta puta desta vida o que anda a pedir é porrada
e acreditai-me, generosos ouvintes,
que nem as putas nem as fadas me habitavam a poesia
foi a lista das compras, senhores
foi a ida ao supermercado
foi o café, as finanças
foi ir ao boom ou ao andanças
e ao destino, a esse cabrão, ter que mudar-lhe as fraldas
ora que porra
ora que merda
ora que tristeza
que eu sorrio muito eu sofro muito eu sou muito simpática
gosto muito dos cães e dos gatos mas digo mal dos pombos que nos dão cabo dos monumentos
é tudo uma espécie de vírus na placenta
vestido com os azulejos dos descobrimentos
é pois uma doença com linhagem
o primo é conde mas depois falta-lhe a coragem
e o efeito
pueril borboleta
juvenal rabeta
e até a canalhice é maneta
preciso de umas luzinhas, meninas, de umas luzinhas que pisquem
venha a nós a alegria das campainhas
e se não das campainhas, da magia das papoilas
qualquer coisa
qualquer coisa para me escorraçar deste prédio
sobrevive a qualquer coisa esta seca deste tédio
corre-lhe o cimento nas veias
tem canhões entre as ameias


mas virados para os seus próprios soldados
esses nós de marinheiros que nós somos
esses contornos
esses com tornos
das listas
das compras
das finanças
carne fria em tempo quente
tempo livre em sangue morno
sem tédio não há consolo
quem dá mais?


a chave a chave o dinheiro o dinheiro
e o amor do Dartacão


Eu quero é um cirurgião para me livrar do transtorno


e depois sim eu sei que me alongo
há que ser sintética
meia frenética
meia antitética




e caminhar algures entre o desidério e a disenteria

terça-feira, 6 de setembro de 2011

deixar-te a sós, mana minha
não é o mesmo que deixar-te sozinha

nem dares-me o braço, meu irmão
significa teres que ler-me o mapa do caminho


esfolamos joelhos
arranhamos as mãos
e deixamos que o tempo escreva orações nas nossas testas

fazemo-nos sempre de ferro

mas até agora além dos nossos só nos cruzámos a penas com mundos banhados a cobre
e por demais cobertos de verdete


todo o rasto são apostas

qualquer coisa entre as respostas e o peixe que apodrece nas redes de domingo à noite

pelo caminho vamos vendendo umas rifas
sem nos enganarmos que com isso consigamos comprar o horizonte
que rima com mastodonte embora nada disso tenha o que quer que seja a ver com o negócio presente
o nosso isco não se faz tão viscoso

as nossas transacções são absolutamente legítimas

esdruxulamente marítimas, pacíficas e  bem comportadas

cristazinhas, mas sem trabalho


o que faz delas umas galdérias
segundo a ordem do momento



mas sabemos nós
felizes de mentes
com o peito cheio de verdades
que o vento tanto varre a fúria para dentro do alento como embala o pontapé que nos cospe para fora dele

o mar acaba sempre por se fundir com as velas do navio
colha ele a terra ou o tormento


aprendemos já que o profeta mais não é do que a areia que reflecte a nossa sede no deserto

sabemo-nos perto

e cantamo-nos irmãos
vadios
ao desafio
que o cais por agora é de cair
não é de chegar